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A História dos Africanos na II Guerra

A História dos Africanos na II Guerra

A participação dos africanos na Segunda Guerra Mundial significou para países europeus como a França e colônias europeias na Africana como Etiópia a chance de libertar-se da dominação e do racismo dos colonizadores.

Por Geferson Santana, bolsista PIBEX do Cahl / UFRB

E-mail: gefsdj@hotmail.com

Orientador PIBEX: Leandro Antonio de Almeida

Publicado originalmente no LEHRB em 19/09/2013

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Não estamos acostumados a pensar uma África caracterizada pela diversidade cultural, política, religiosa e linguística que lhes são próprias. As imagens que temos do continente é exatamente aquela que o historiador africano Ali A. Mazrui expressa, ao afirmar que “alguns não temeram ofender simultaneamente as mulheres e a África, chegando ao ponto até de denominar esta última como ‘o continente-mulher’, em alusão a uma suposta passividade e penetrabilidade”.


Hoje não seria estranho ainda encontrarmos pessoas que se espantem ou duvidem da informação referente ao engajamento dos africanos e suas respectivas colônias na Segunda Guerra Mundial, e que não estavam motivados pela fúria de seus colonizadores em caso de resistência, e sim pela vontade de querer defender seus territórios, povos e respectivas culturas, além de alimentar esperanças de dias melhores.


A crise econômica mundial e a África


Ocorreram na África mudanças significativas iniciadas em 1929, se prologando pela década de 1930 e consolidadas na efervescência da Segunda Guerra Mundial no mundo e no continente africano.


A crise econômica de 29 deixou um rastro de destruição e a luta pelo poder ocupando o centro da causa. Ela estremeceu as bases do sistema de produção dos países capitalistas, gerando o subconsumo, mexeu com a Bolsa de Valores de Nova York, e exacerbou os nacionalismos com a fracassada tentativa em junho de 1933, para pensar numa saída na Conferência Econômica Internacional de Londres, discutindo as possibilidades de entendimento e cooperação para driblar a crise geral.


Desde a segunda metade do século XIX que o continente africano estava inserido na dinâmica econômica que provocava a necessidade de expansão imperialista no mundo. As colônias africanas dominadas por países europeus passaram a sofrer os efeitos da decadência financeira que abalava as “grandes civilizações” europeias.


Na África do Norte que compreendia uma imensidão de espaços geográficos colonizados por europeus, o sistema econômico foi marcado por profundas transformações. Na colônia francesa da Argélia o valor das importações cai pela metade entre 1929 a 1935, mas igualmente decresceram as exportações, a produtividade na mineração e na agricultura em outras partes do norte africano.


Embora na Argélia as dificuldades econômicas não tenham origem na crise e sim da própria condição de colônia, a irrupção da 2ª Guerra Mundial acabou gerando outros problemas sociais como a emigração para a metrópole, que levou para a França as primeiras ondas de trabalhadores emigrados. Isso ocorreu também com outras colônias do norte da África como Tunísia e Marrocos.


Os surtos migratórios também vigoraram no interior das colônias africanas. Tornaram-se alicerces de um continente sedento da vontade de sobreviver aos efeitos da guerra e da depressão econômica. As migrações que portavam um caráter de provisórias aos poucos emergiam enquanto permanentes com as chegadas das famílias nas periferias das grandes cidades do norte da África. Logo, as favelas ganhariam espaço e se ampliariam com êxodo rural. Muitos africanos sem muitas oportunidades de emprego investiram na mendicância, mas também optaram por uma vida dependente do assistencialismo.

Ao leitor seria interessante uma reflexão sobre as condições que a depressão econômica iniciada em 1929 e alastrada pelas décadas de 30 e 40 causou na economia mundial, sendo esta um dos principais motivos da expansão imperialista das potências como França, Inglaterra, Alemanha, Itália e os Estados Unidos. Como ponto de apoio verifique no seu livro didático como a África aparece enquanto integrante e sofredora do contexto das décadas de 20, 30 e 40.


Envolvimento do chifre da África e da África setentrional na guerra



Imagem 01. O avanço das tropas italianas na Abissínia. CHENNTOUF, Tayeb. O chife da África e a África sententrional. In: História Geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010, p.49.

A imagem não apenas retrata a expansão das tropas italianas pela Etiópia (conhecido fora da África também como Abissínia), considerada até 1935 o único Estado africano independente. Logo, supõe-se que a história dos africanos na guerra não começa no mesmo período que na Europa (1939).

No continente africano a guerra começa quando Mussolini inicia o processo de invasão da Etiópia em 1935, mas a partir de 1939, as forças britânicas junto com patriotas etíopes iniciam a Campanha da África Oriental com o objetivo de garantir a soberania do Estado africano em 1941, que cominou na soberania completa com a assinatura do Acordo Anglo-Etíope em 1944. Neste intervalo de 1941-44 o então imperador etíope Haile Selassie, exilado na Inglaterra, retoma seu império. Até hoje ele é símbolo religioso no movimento rastafári.


A vitória etíope sobre os italianos representou muito no imaginário dos africanos. As esperanças de dias melhores e de independência após o sombrio período de guerra estavam sendo construídas em seus imaginários. Eles acreditaram em uma vida de liberdade e sem os colonos opressores. A participação dos africanos no esforço de guerra representou as esperanças na mudança em um sistema colonial marcado pelo racismo dos colonizadores.

O engajamento dos africanos nos esforços de guerra tem como plano de fundo a esperança de abertura democrática, o que acabou acontecendo em 1939 quando os Aliados (França, Inglaterra e EUA) declararam guerra ao Eixo fascista (Alemanha, Itália e Japão). Mas, muitos outros africanos ligados às colônias de domínio fascista acabaram sendo recrutados forçadamente, estes em um número aproximado de 190 mil homens lutaram “(…) em frentes de batalhas na Alemanha, Itália, Líbia, Normandia, no Oriente Médio, na Indochina e na Birmânia”, diz Leila Leite Hernandes.


Os confrontos nos desertos etíopes eram apenas uma pequena prévia de que a guerra estava apenas começando. Mas, a perda de domínio sobre a Etiópia fora um fracasso militar considerável para os fascistas, e com isso Hitler organizou o Afrika Korps em 1941, na tentativa de empurrar os exércitos ingleses de volta à fronteira egípcia.


O projeto Afrika Korps criado pelo ditador nazista Hitler, e liderado pelo general Erwin Rommel nas duas tentativas fracassadas de invadir e dominar o Egito. Em todas as tentativas os ingleses os impediram de realizar a proeza da conquista e dominação do território egípcio, forçando-os a fugir para a Líbia sob domínio italiano.


Os italianos já tinham empurrado os ingleses até as fronteiras do Egito, contando dessa vez com contra-ataque dos britânicos. A marcha para o Egito tinha o objetivo de conquistar o canal de Suez, e dali para o Iraque a fim de controlar as reservas de petróleo. Mesmo com os ataques das trovas italianas os britânicos causaram derrotas fatais ao exército de Mussolini.


Da mesma forma é interessante refletir sobre a importância das vitórias dos britânicos sobre os alemães em 1942. Mas só os britânicos lutaram em prol da vitória? Obviamente que não. Os africanos foram arregimentados em prol do projeto de defesa da África e consequentemente dos interesses dos colonizadores. Está claro, que muitos africanos queriam estar na guerra, pois como já explicado antes, eles criaram em seus imaginários a esperança de melhorias em suas situações de colonizados e de seus respectivos territórios, isso muito influenciados pela experiência dos etiópios.


A Itália representou para os Aliados uma verdadeira “dor de cabeça”, considerando que a partir da Líbia insistia em querer ameaçar a Tunísia. A reação britânica em alguns momentos fora retardada, porque “o desembarque anglo-americano acelera o desenvolvimento dos projetos alemães na Tunísia. Em 9 de novembro de 1942, uma centena de aviões alemães aterrissam na área de al -‘Awina, perto de Túnis, com um corpo de 1.000 homens”. A iniciativa alemã de invasão de Túnis, capital da Tunísia, sem aviso prévio na noite do dia 13 para 14 de novembro do mesmo ano garante a ocupação dos grandes centros urbanos como Sfax, Sousse e Gabès, diz Tayeb Chenntouf.


Forças militares dos Aliados iniciaram uma contraofensiva à invasão alemã. Os britânicos e estadunidenses alcançariam vitórias significativas cotando com a tomada da Tunísia pela fronteira da Argélia. Esta é usada como ponto de partida das operações, iniciadas primeiramente pelos britânicos, assim como africanos, permitindo que finalmente a conquista e tomada do território tunisiano do controle nazifascista se concretize em maio de 1943. Os conflitos militares compreendidos entre 1941 a 1943 devem ser lembrados como fatores importantes dentro de um processo maior, que foi a derrocada do Eixo.

Descreve Chenntouf que até “(…) junho de 1940, a África do Norte fornece sozinha 216.000 homens, entre eles 123.000 argelinos. De 1943 a 1945, 385.000 homens originários da África do Norte (incluindo 290.000 argelinos, tunisianos e marroquinos) participam da liberação da França. O exército africano intervém na liberação da Córsega (setembro–outubro de 1943), na campanha da Itália (atingindo Roma em 15 de junho de 1944) e na campanha da Provence (em agosto de 1944), antes de se redirecionar rumo ao norte para se unir ao conjunto do exército francês”.


Os alistamentos para o front de combate aos eixistas não aconteceram apenas militarmente, muitos partidos políticos nacionalistas se engajaram na luta contra a ideologia fascista propagada pela Alemanha e Itália e que teve algum eco no Egito. Mas, muitos outros foram, igualmente, censurados, postos na clandestinidade e, por consequência, fadados ao desaparecimento no cenário político. Foi isso que acometeu ao Partido do Povo Argelino com seu líder Messali Hadj e membros que foram presos ou condenados a trabalhos forçados em 29 de abril de 1941.


Os nacionalismos reivindicativos surgem no momento de crise iniciada na década de 1920, compondo um ativador para as mobilizações sociais e políticas no chifre da África e África setentrional. As movimentações políticas não foram bem vistas pelos colonizadores, em especial as que ocorreram nas colônias francesas. Entre 1937 a 1938 as pressões reivindicativas e nacionalistas africanas foram reprimidas e tratadas com intransigência pelos europeus, com exceção do Egito. As reivindicações políticas não são oriundas da guerra.


Aos poucos as radicalizações políticas seriam realidade nas colônias após a Segunda Guerra Mundial, em especial na Argélia, Tunísia e Marrocos. A questão, é que com a perda do “capital de intimidação” como diz Chenntouf, os partidos nacionalistas puderam sonhar com a conquista da independência, já que durante a guerra o conflito fora pela defesa da democracia, que agora estava sendo solicitada pelos povos africanos que lutaram por ela.


Os movimentos nacionalistas ocorridos nas quatro primeiras décadas do século XX estimularam as reivindicações de independência que acabam se consolidando nas décadas de 60 e 70. Os Estados africanos independentes são fruto das ondas reivindicatórios das décadas anteriores. Na atualidade, os jornais do mundo inteiro ainda registram movimentos de residência política no continente africano. Eles aprenderam com seus opressores que a luta pela democracia é o alimento da vida em sociedade e o caminho para alcançar a igualdade.

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