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Sobre referências a fontes disponíveis na Internet


Sobre referências a fontes disponíveis na Internet

Leandro Antonio de Almeida


Publicado originalmente no LEHRB-UFRB

08/03/2013


Na prática acadêmica e escolar da História, a referência às fontes é muito importante, porque são elas que fundamentam todo e qualquer discurso histórico. É sobre a referência que repousa a pretensão de verdade do nosso campo de conhecimento, visto serem as fontes o único acesso a realidades passadas. Só sabemos que algo aconteceu ou foi produzido em um tempo passado porque vestígios chegaram até o presente, e isso após esse vestígio ser submetido a rigorosos procedimentos de crítica que atestem sua autenticidade e veracidade.


Na maior parte dos blogs e sites da internet voltados à educação e à história há problemas sérios nesse sentido. Textos e imagens circulam sem referências aos autores, locais onde a versão física foi consultada ou está disponível e outras carências. Outro problema daí decorrente é que um aluno ou pessoa não familiarizada acham que a internet é a fonte, não o meio de divulgação. Por isso é muito comum no ensino básico e na graduação um erro grosseiro: a pessoa citar como fonte o blog ou site onde a imagem está disponível.

Para exemplificar, observe a diferença entre as apresentações da imagem de um famoso quadro de Tarsila do Amaral:

http://ietarsiladoamaralrs.blogspot.com.br/2012/01/tarsila-do-amaral-no-mundo.html



Quadro Operários, de Tarsila do Amaral, 1933.



Qual o problema das duas primeiras referências?


A primeira traz todos os pecados possíveis, pois não indica os dados da imagem, apenas o link. Esse é um erro muito comum: indicar uma imagem sem maiores referências. Se o autor fosse cuidadoso, o link levaria a um site com informações completas sobre a imagem, mas esse quase nunca é o caso. Para exemplificar, experimentem acessar o link acima e vejam se nele é possível encontrar mais informações sobre a imagem além de ter sido feito por Tarsila do Amaral...

A autoria já é uma informação importante (às vezes nem isso é indicado), mas só esse dado obrigaria uma pessoa rigorosa a realizar outra pesquisa sobre as obras da pintora apenas para descobrir os elementos básicos do quadro.


A segunda imagem apresenta uma maneira de fazer referência muito comum na internet. Apresenta os dados mínimos de autoria, título e data, mas não indica dimensões, localização e muito menos link para acesso virtual. Com isso, leva a crer que quem criou a reprodução da imagem foi o próprio autor do blog ou site, o que provavelmente é falso. Se fosse o caso, isso também precisaria ser indicado na referência.

Com autoria, título e data, além de um suporte bibliográfico adequado, já seria possível iniciar um trabalho em sala. Porém, o caminho referencial da imagem estaria perdido.


Vejamos agora outra apresentação da mesma imagem:



AMARAL, Tarsila. Operários. 1933. Pintura. Óleo sobre Tela 150 x 205 cm. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. In: Tarsila e o Brasil dos Modernistas na casa Fiat de Cultura. Nova Lima-MG: Base 7, 2011, p. 21. Catálogo de Exposição. 10 de maio e 10 de julho de 2011. Casa Fiat de Cultura. Curadoria de Regina Teixeira de Barros. Disponível em: http://www.casafiatdecultura.com.br/admin/catalogos/Cat_Tarsila_CFC.pdf . Acesso em 8. mar. 2013.

A terceira forma de apresentar a referência é aquela que consideramos ideal.


Temos os dados de autoria, título, data, tipo de imagem, técnica e dimensões, além da localização física do original do quadro. Salvo se for uma imagem produzida para meio digital, esse é um dado que não pode ser omitido! É claro que o blogueiro pode não ter essa informação, mas isso precisa ser indicado.


Observemos também que a imagem do quadro foi extraída de um documento considerado confiável, um catálogo de uma exposição. Como provavelmente há o catálogo físico, a citação foi feita segundo padrão da ABNT. Apenas no fim indicamos o endereço da versão digitalizada do catálogo, extraído do próprio site da instituição, bem como a data do acesso.

É claro que podemos citar sites da internet, mas nesse caso devemos dar preferência àqueles com credibilidade. É diferente citar um site do museu onde o quadro ou foto está disponível fisicamente do que um site de um amigo nosso onde não consta maiores referências...


Tudo o que dissemos acima vale para vídeos (youtube), fotografias, mapas, textos, ou seja, qualquer documento reproduzido na internet com pretensão de ser usado como fonte histórica ou suporte de informações. Afinal, lembremos que são importantes para o conhecimento do passado as perguntas básicas sobre quem produziu o documento, quando, onde, porque, a mando de quem, para qual finalidade, segundo quais técnicas, onde e porque ele foi conservado ou reproduzido.


É claro que numa aula de História a relação com a imagem, vídeo ou texto não se restringe às referências. Ao escolhermos utilizar um documento, provavelmente iremos fornecer informações sobre o autor / produtor, quando foi produzida, abordar sua importância como fonte e, principalmente, como nos ajuda a compreender uma sociedade passada. Mas esse exercício não passará de divagação fantasiosa sem as referências corretas e confiáveis.

Tomamos conhecimento de um caso interessante e bastante ilustrativo dessa questão quando ministrávamos uma aula no curso de Licenciatura em História em 2013. Uma aluna do primeiro semestre encontrou em um blog uma tentativa de desmentir a legenda de uma suposta "única" foto de um navio negreiro, que teria sido tirada pelo fotógrafo carioca Marc Ferrez a bordo de um navio francês. A legenda da foto circulou pelo Facebook, contou com mais de onze mil compartilhamentos e ainda foi difundida em blogs como informação verdadeira, como este aqui assinado por Zantônio Lahud. O pesquisador que localizou a imagem fez uma postagem no blog sobre o erro: a foto havia sido tirada por um fotógrafo da Coroa Britânica, George L. Sullivam, a bordo de um navio inglês aportado em Londres, com uma carga de escravos apreendida próximo a Zanzibar no ano de 1873.


A postagem completa do autor Spirito Santo pode ser lida aqui. Ela aponta os mesmos problemas que levantamos antes sobre as referências das fontes, e contém a fotografia utilizada para ilustrar o livro desse autor. Mas infelizmente não traz os dados do acervo original onde a foto ou negativo estão depositados, o que, ao permitir verificação, ajudaria a dar credibilidade à crítica e correção que foi feita.


Por isso, devemos enfatizar e exercitar com os alunos da educação básica o rigor envolvido na prática de fazer boas referências, cujo hábito ajudaria a diminuir o lixo informacional nesse mar de bits que é a internet.


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